Na Kumbha Mela!

Durante a viagem que fiz, levando um grupo pela Índia em janeiro de 2007, mantive um blog com o relato de cada dia.  Várias passageiros também escreveram, o que permitiu que a experiência chegasse “fresquinha” a parentes e amigos.

Tendo ficado mais alguns dias, depois do retorno do grupo, fui para a Kumbha Mela. Veja dois posts que escrevi relatando essa experiência inesquecível.

-Prof. Andrês De Nuccio


Mudança de planos

New Delhi, 21 de Janeiro de 2007 

Daqui a uma hora deixo o hotel para ir ao aeroporto. Volto para o Brasil depois de uma viagem maravilhosa. O grupo retornou há alguns dias e eu fiquei mais cinco dias, pois pretendia concluir com os relatos do Blog, trabalhar com as mais de mil e quinhentas fotografias que tirei e pensar em minhas metas para o ano. A vida, porém, é dinâmica e mudou todos os meus planos.

Estando aqui, fiquei sabendo da Kumha Mela que estava acontecendo em Allahabad, no estado de Uttar Pradesh. A Mela é uma grande festa religiosa que acontece a cada três anos em quarto cidades da ĺndia, uma vez em cada cidade. Nela reúnem-se literalmente milhões de pessoas para ouvir Mestres renomeados, participar de rituais e entrar em contato com os Sadhus. Ela está bem descrita no livro Autobiografia de um Iogue, de Paramahansa Yogananda.

Desde a minha adolescência, um dos meus sonhos era participar de uma Kumbha Mela. Depois de algumas dúvidas, decidi ir e minha experiência foi maravilhosa! Não vai dar para contar agora tudo que aconteceu, pois tenho que me preparar para partir, mas prometo que assim que chegar, relatarei tudo que vivi, muito além das minhas melhores visualizações!


O relato completo da viagem à Kumbha Mela

25 de Janeiro de 2007

Voltando no Brasil, aproveito esta silenciosa madrugada –meu corpomente ainda está no fuso indiano!– para me deliciar duas vezes: uma lembrando das minhas experiências na Kumbha Mela e outra compartilhando isso tudo com você.

Antes de tudo cabe explicar o que é essa tal de “Kumbha Mela”. Trata-se do maior festival religioso da Índia. Ela é realizada nas cidades de Nassik, Allahabad, Haridwar e Ujjain. A cada três anos, uma dessas cidades recebe o festival do qual participam vários milhões de visitantes. Este ano, ela ocorre em Allahabad e, segundo os jornais, deve receber mais de trinta milhões de pessoas durante seus 45 dias de duração. Isso quer dizer MUITA gente junta!

Para receber essa multidão, é construída uma cidade temporária. São traçadas ruas e montadas barracas semelhantes às usadas pelo exército. Outros lugares simplesmente apresentam um espaço livre –um pedaço de terra sob as árvores– que as pessoas podem usar para montar suas barracas ou simplesmente colocar alguns panos no chão e cobrir-se com alguns cobertores para dormir. A maioria das pessoas que participa das Melas vem dos vilarejos indianos. 

Aqui cabe esclarecer que as pessoas das grandes cidades –Delhi, Mumbai, Chennai, etc– vivem de forma mais próxima ao estilo ocidental e pouco participam dessas festas (estão demasiado ocupadas ganhando dinheiro!). As pessoas do interior, muito religiosas e até mesmo supersticiosas, percorrem longas distâncias vindo em ônibus, em caminhões, em carros de todos os tipos, numa peregrinação fervorosa e comovente. Nas fotos você pode vê-las carregando os seus pertences sobre a cabeça, amarrados num pano ou numa sacola. Ali elas levam alguns alimentos e cobertores.

Eu aluguei um carro com um guia que falava um bom inglês e era brâmane (o grupo das pessoas tradicionalmente mais religiosas). Isso foi ótimo porque ele conhecia bem o tema das Kumbha Melas e respondia prontamente às minhas muitas perguntas. Além disso ele estava eufórico porque, graças à minha presença, ele também podia ir na Kumbha e isso lhe soltava a língua e lhe aumentava a vontade de dar todo tipo de detalhes.

Chegando em Allahabad, uma cidade típica do interior do norte da Índia, comecei a ver as colunas de gente caminhando ou deslocando-se por todo tipo de meio de transporte. Mas, foi ao atravessar uma ponte alta que tive uma visão que me impactou sobremaneira. Era o entardecer, estava quase escuro. Perguntei ao guia: “Dada, o que são essas luzes?” “São a Kumbha, senhor”. Confesso que fiquei estatelado. Pedi para parar e poder ver, ou melhor, assimilar o que estava vendo. Uma coisa é falar de mais de três milhões de pessoas –um numero abstrato para mim. Outra coisa é ver um acampamento que talvez tenha uns três ou quatro quilômetros quadrados iluminado por pequenas lâmpadas que se estendem até onde alcança a vista. 

Não tinha idéia da dimensão da coisa. Perguntei de novo ao guia se todas essas luzes eram mesmo da Kumbha e o guia sorrindo disse: “Sim, senhor. Foi tudo construído para receber a Kumbha. Daqui a alguns meses não haverá mais nada.” Precisei mais um longo tempo até assimilar o conceito. E isso, de alguma forma, me colocou num outro estado, mais aberto, respeitoso e receptivo a tudo que iria ver.

Como escrevei antes, a Kumbha Mela habitava um lugar muito romântico da minha mente desde que li sobre ela na minha adolescência. Como toda idealização, ela estava repleta de sinais mágicos.

É claro que amadureci muito em minha forma de pensar a espiritualidade, convivendo com pessoas verdadeiramente espirituais. As fantasias de pessoas super-poderosas ou super-sábias ou super-corretas ou super-transcendentais ou “super-qualquer-coisa” cedeu faz tempo à constatação madura de que super-homens e super-mulheres existem apenas nas revistas de quadrinhos.

Mas estar na Kumbha, despertava aqueles neurônios que tanto sonharam com os Sadhus e Swamis e Yoguis –todos homens santos e muito reverenciados na Índia– e eles colocavam minha mente num estado de prazer e excitação.

A empresa que é nossa parceira na Índia fez todos os arranjos para minha estadia em Allahabad, mas como eu decidi fazer essa viagem na última hora, as opções eram muito reduzidas. Para a primeira noite, conseguiram que eu ficasse numa das barracas “de luxo” dentro do perímetro da Kumbha Mela. Na segunda noite, dormiria num hotel distante 8 km do local e para a terceira noite ainda não tinham conseguido nada. As fotos mostram a barraca, bem montada onde os indianos de maior poder aquisitivo ficavam.

Assim que me instalei (isso quer dizer, fazer o registro na recepção e estacionar o carro), sai sem demora, com meu guia, a caminhar pelas ruas apinhadas de gente. As ruas eram quase todas de terra. Por causa disso, a multidão caminhava numa nuvem de poeira. 

A cada momento cruzava com centenas de pessoas indo e vindo em todas as direções. As ruas eram apenas caminhos virtuais entre algumas áreas onde havia barracas de comida, outras onde havia vendedores ambulantes e pedintes, outras onde havia barracas muito simples. Muita polícia estava presente orientando o fluxo da multidão.

Fomos direto até uma parte da feira onde havia barracas iluminadas com luzes coloridas. Eram as barracas onde estavam os principais Sadhus, Swamis e Yoguis. Caminhando por elas, vi o Sadhu que anos atrás levantou o seu braço direito para nunca mais abaixá-lo, numa prática de ascetismo difícil e dolorosa mas que, sem dúvida, faz com que quem a assume venha a ganhar uma enorme capacidade de não se deixar manipular por impulsos e sensações corporais. 

Numa outra barraca tinha um outro Sadhu que nunca se deita ou se senta. Ele fica em pé o tempo todo. Na sua barraca, uns panos pendurados de um poste serviam para ele manter o corpo na posição vertical às noites, enquanto dormia. Esses votos são formas de se obrigar a superar condicionamentos físicos, mentais, sociais, biológicos. Certamente sua necessidade e valor merecem uma discussão profunda (que transcende as possibilidades deste espaço). 

Eu não tirei fotos desses Sadhus pois estava apenas chegando, reconhecendo a área. Não sabia que iria ficar tão empolgado com um grupo de Sadhus que só voltaria a lembrar desses que encontrei primeiro apenas agora, ao escrever estas linhas!

Em outras dessas barracas centrais aconteciam diferentes coisas: entoavam-se bhajans (cantos devocionais), algum Swami falava em hindi, apresentava-se um teatro com cenas do Ramayana (um épico religioso), servia-se prasada (alimentos), etc.

Então chegamos a uma área com barracas semelhantes às usadas pelo exército onde, próximo à entrada, tinha uma barraquinha feita de bambu com teto de palha. Dois grupos de Sadhus estavam reunidos em torno de dois fogos que ardiam dentro de respectivos quadrados feitos de tijolos. Eram os Naga Babas, os Sadhus que vivem nus quase o tempo todo. Eles são da elite dos Sadhus e as vedetes da Kumbha Mela. Normalmente eles vivem em locais de difícil acesso e, por isso, raramente são vistos. Mas durante as Kumbhas, eles saem para se mostrar e abençoar as pessoas.

Fiz a minha saudação respeitosa juntando as mãos sobre o peito e eles me convidaram para sentar-me em torno do fogo. O cabelo tipo rastafari de um deles, que ultrapassa a linha da cintura quando solto, estava enrolado sobre a cabeça. O corpo totalmente nu estava coberto com cinzas (vibhuti). A aparência nada convencional desperta admiração e temor nas pessoas que pouco entendem de espiritualidade. Eles são vistos como pessoas muito poderosas. De fato para estarem nus na noite de Allahabad, onde a temperatura cai para menos de 10 graus, eles têm que ter um grande controle sobre o corpo e a mente.

Durante sua prática (sadhana) nas cavernas ou acampamentos nas florestas, eles realizam diferentes tipos de austeridades. No imaginário popular eles são capazes de predizer o futuro, curar doenças, deter os batimentos cardíacos, jejuar longamente e tem todo tipo de siddhis (poderes paranormais).

Para mim, eles eram apenas seres humanos, buscando ganhar controle sobre o corpo e a mente a fim de viver em constante apreciação de Presença Única que se manifesta em todas as formas e movimentos do universo. Os campesinos chegavam, se curvavam e recebiam uma benção na forma de uma marca na testa feita com cinzas. Eles deixavam algumas moedas num prato que estava na frente de um simples altarzinho feito com algumas imagens e flores. Enquanto outros abaixavam o olhar, eu os olhava tranqüilamente nos olhos, num olhar fraterno sem julgar, sem desafiar, sem agredir ou me defender. Estava em casa!

Com ajuda do guia (que falava hindi) respondi às perguntas deles explicando de onde vinha e o que fazia. E fiquei ali. Apenas estando, bem acomodado num lugar onde tudo parecia encaixar perfeitamente, sem qualquer esforço. 

O guia tentou me levar embora, mas eu quis ficar mais um pouco. Finalmente, entendi que ele precisava ir embora e que eu não tinha a mínima idéia de como chegar na minha barraca (o caminho de volta, entre milhares de pessoas era por ruas sem nome nem marcas específicas e eu não tinha deixado meu rasto de pedrinhas brancas). Assim, fizemos a nossa reverência e voltamos até a barraca.

Alto falantes, espalhados por toda a extensão da Kumbha Mela, falavam alto mesmo, o tempo todo. Ao tentar conciliar o sono percebi que eles não cessavam de falar nomes de pessoas perdidas ou entoar cânticos.

Na manhã seguinte, ao amanhecer, encontrei o guia (que dormiu no carro) e fomos até a beira do Ganges. Allahabad é chamada de Prayag nos textos antigos. Prayag é o nome dado ao lugar onde rios se unem. Esse é um lugar sagrado pois simboliza a união da dualidade, a reconciliação dos opostos. Allahabad é um prayag muito especial pois ali se reúnem três rios: o Ganges e o Yamuna (aquele que passa ao lado do Taj Mahal) se unem ao Saraswati. Esse último rio, hoje não mais existe. Os indianos dizem que ele flui subterraneamente. Então este lugar simboliza o ponto de reunião da trindade. Por isso é um lugar muito especial. Somado a isso, a Kumbha Mela acontece num momento astrologicamente muitobenéfico, em que as forças curadoras do Prayag se multiplicam. Por isso, os peregrinos desejam mergulhar nessa confluência de águas.

Chegando na praia, alugamos um barco e navegamos até o ponto onde as águas de ambos rios se misturam. Colocamos a mão nesse ponto e derramamos algumas gotas dessa água purificadora sobre nossas cabeças. Ali perto, numa ilha artificialmente construída, os peregrinos mergulhavam, reverentes, nas águas geladas.

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Depois disso, nossos passos nos levaram, sem rodeios, de volta à barraca dos Sadhus. Eles me receberam com um sorriso e eu pude ficar com eles mais um pouco. Outros Sadhus chegavam, sentavam-se um tempo em torno do fogo, conversavam alguma coisa e se retiravam, dando lugar a outros que vinham para se aquecer em torno do fogo.

 

Numa panela fervia-se leite com café ou com chá preto e açúcar. Distribuía-se a bebida quente aos que chegavam. Um fluxo incessante de peregrinos chegava num misto de curiosidade e assustada reverencia, curvavam-se aos pés dos Sadhus e recebiam sua benção. Alguns ocidentais também passavam por lá. Eles vinham e iam, eu ficava.

Alguns Sadhus falavam inglês, o que me permitia fazer perguntas e contar coisas minhas também. Assim fiquei sabendo o nome dos Sadhus, que um deles -o que estava vestido- era o guru de todos os outros, que no acampamento havia uns sete gurus e que os estudantes eram discípulos de todos eles (nada a ver com essa errônea e exclusivista idéia ocidental de ter apenas um guru). 

Ao amanhecer e ao entardecer, no momento em que tradicionalmente realizam-se as pujas (cerimônias religiosas) os estudantes percorriam as diferentes barracas tocando com suas testas os pés dos diferentes mestres, uma vez que eles são o fogo vivo da espiritualidade.

A questão é que, num dado momento, eles me convidaram para ficar no acampamento. No dia seguinte seria um dos momentos mais importantes da Mela no qual os Sadhus formam uma longa fileira e vão, com toda pompa, até o rio, para serem os primeiros a tomarem o banho sagrado. Uma multidão os acompanha e eles me convidaram para passar a noite com eles. Pode imaginar qual foi a minha resposta: um “Sim!” sem hesitação e com um sorriso de orelha a orelha!

Dessa forma passei longas horas sentado em torno do fogo, entendendo aos poucos como se davam as relações entre os sadhus, entre os alunos e os mestres, entre eles e os visitantes, descobrindo a forma respeitosa com que tratavam os que deles se aproximavam para receber o darshanam (a visão de um homem santo) e, ao mesmo tempo, o desprezo pelos valores da cultura, pela crendice, pelos condicionamentos.

A forma como eles se apresentam, nus e cobertos de cinzas, faz com que não sejam interrompidos em suas práticas por pessoas que buscam conselhos mundanos, faz com que sejam valorizados e, assim, sustentados. A prática de austeridades faz com que possam continuar a ser manifestações vivas de que a mente é muito mais poderosa do que o corpo, de que o transcendente supera o mental e de que a plenitude da vida pouco tem a ver com a satisfação de desejos físicos ou da personalidade. 

Eles radicalizam em algumas coisas e assim, muitos fumam uma mistura de tabaco com ervas (entre as quais a marijuana) sem perder a lucidez, outros levam praticas ascéticas a extremos psicologicamente perigosos. Tudo isso construiu em torno deles, no decorrer dos séculos, uma aura de profundo mistério e mágicos rumores.

Enfim, há muito o que dizer mas, de novo, isso tudo não cabe no espaço de um Blog. 

No dia seguinte, de madrugada, o guru me chamou e me deu uma insígnia (nada discreta, bem indiana!) que me permitia circular à vontade durante a procissão dos Sadhus, tirando fotos sem qualquer restrição. Era uma forma de me fazer parte da família. Isso foi muito mais do que eu imaginei nos meus melhores sonhos –meus neurônios adolescentes e românticos eram tomados por ondas de uma emoção extraordinária.

Antes da procissão, mesmo os Sadhus que normalmente usam roupas, ficaram nus, tomaram um banho numa torneirinha e cobriram o corpo molhado com cinzas. Dessa forma, elas grudam no corpo e eles podem apresentam esse visual fantasmagórico que aparece nas fotos. 

Eles imitam Shiva, aquela representação de Deus como asceta, rei das disciplinas e austeridades, senhor dos instintos, dos impulsos, dos condicionamentos, livre de toda ilusão, de todo apego, de toda ilusão. Na sua forma radical com a sua forte presença eles gritam às pessoas, sem dizer uma única palavra: “Você não é um corpo! Você não é uma mente condicionada! A vida conforme os padrões hedonistas e consumistas é nada! Viver atendendo a desejos, instintos e impulsos é ser um mero animal insignificante! Você é muito mais do que a sociedade lhe permite ser! Você pode! Você é! Sacuda o pó dos medos e conceitos aprendidos e voe, e viva, e expresse seu poder, sua luz...

A procissão dos Sadhus é protegida por policiais que mantém a uma certa distância a multidão impressionante que se reúne para vê-los, para reverenciá-los, para receber a benção de ter estado perto deles. 

Eles caminham lentamente, numa filha dupla, de mãos dadas. Na frente, alguns levam bandeiras dos diferentes grupos ou ashrams de Sadhus, outros vão numa posição de destaque, montados à cavalo, outros usam objetos e roupas que representam diferentes aspectos de Shiva. Eles são acompanhados por uma banda que toca uma música absurdamente estridente –nada semelhante a qualquer som new age!

A multidão tenta chegar perto, a polícia impede agindo com energia. Os fotógrafos profissionais registram a cena com suas sofisticadas câmeras e filmadoras. E no meio disso tudo, um latino-americano recém chegado com sua pequena máquina de bolso e seu grande distintivo indiano, circula livremente junto com a procissão –os policiais lhe abrem caminho!– tirando centenas de fotos, dando risadas à toa, num dos dias mais felizes de sua vida!

Depois de uma caminhada de aproximadamente um quilômetro, chegamos à beira do rio. Os Sadhus cantam e gritam dando-se coragem para mergulhar nas águas enquanto aguardam a chegada do amanhecer (são, mais ou menos, as cinco da manhã e está um frio cortante). De repente surge o primeiro raio de sol e todos pulam nas águas escuras e frias dos três rios. Alguns momentos depois, ao saírem eles se cobrem de cinzas (trouxeram as cinzas em saquinhos plásticos).

A volta é mais demorada. Alguns Sadhus de maior destaque sobem em enfeitadas carruagens puxadas por tratores, encabeçando a procissão. A banda continua e aturdir com seus sons enquanto os Sadhus dançam sem qualquer passo coerente… livres de qualquer esquema estético –caóticos como a própria vida.

Mais de uma hora depois do banho, chegamos ao acampamento. O fogo continua a arder e todos buscam sua proximidade para aquecer-se. O leite com chá é rapidamente preparado. Há uma sensação de alegria e dever cumprido. 

De alguma forma, essa demonstração, que ocorre apenas uma vez a cada três anos, representa uma forma de retribuição à sociedade que os ampara e sustenta. Pode ser que de cada cem Sadhus apenas dois ou três se transformem em pessoas de extraordinária luz e sabedoria. Mas a influencia benéfica desses dois Sadhus sobre toda a sociedade, vale o investimento feito ao sustentar todos os outros noventa e oito. É pensando assim, que a sociedade indiana, desde há milênios, ampara e protege todos os Sadhus, sem exceções ou restrições.

Eu ainda passaria, muitas horas com os sadhus, em torno do fogo que, como símbolo da vida, da verdade espiritual, do próprio Deus, está sempre aceso e no centro. O retorno foi com a mente cheia de imagens e sensações. A alma mais tranqüila do que nunca. Mesmo nos momentos de maior êxtase dos meus neurônios adolescentes, espiritualmente românticos, a serenidade interior de que só há uma Única Presença, uma Única Inteligência, um Único Poder manifestando-se através de tudo esteve ardendo em meu interior, estável como a fogueira dos Sadhus. Nessa apreciação reside a segurança e a satisfação imperturbáveis.

Aqui está amanhecendo. Escrevi sem parar revivendo momentos muito lindos. Agora tudo está feito. O objetivo deste Blog, está cumprido. Dá para entender a minha necessidade ao criá-lo? Dá para sentir que tanta coisa precisa ser compartilhada? Que é forte demais para ficar presa num único coração? É claro que há mil coisas que ficaram sem ser ditas pela falta de tempo ou de habilidade ao escrever. Mas fiz o que foi possível e estou feliz com isso.